2.2.10

Os "THE SPAGHETTIES"















The Spaghetties - Londrina, jan-1994/fev-1996.


Formação: Humberto Scaburi/ guitarra
Marco Silva/ guitarra
Lucas Ricardo/ bateria
Rodrigo Amadeu/ vocais e baixo


Realmente fica difícil resistir a uma solicitação terrivelmente nostálgica como essa. Algumas pessoas gostam de provocar fantasmas, e eu também sou uma delas, por isso topei a bronca. Ok, posso tentar agora? Aqui vou eu.

Talvez eu deva considerar a minha adolescência em Londrina como algo do tipo "perdido entre o tempo e espaço em algum paraíso jamais esquecido". Eu sei bem que a cidade não é mais a mesma, mas não tenho do que reclamar deste lapso de memória que jamais vai parar de vir à tona em flashes, sons, odores, sabores e sensações, que de vez em quando me surpreendem em regurgitadas involuntárias. Eu sonhava com a cidade de uma maneira e vivia meu sonho, mesmo com ela sendo de outra. E quem se importa?

Todo adolescente tem seus "bruddas", sejam eles mais velhos, ou da mesma geração ou idade. Todo adolescente tem suas piras, fantasias, amores, pitadas exageradas de saboroso ódio e indignação, admirações e ídolos, e talvez um vinil do MC5, dois dos Ramones e um k-7 do N.Y.Dolls... Opa, falei demais!

Conheci três caras na beira do palco do D.C.E e do Gran Mausoleo em Londrina no começo dos anos 90. Isso foi exatamente entre 1992 e começo de 1993, nesse ano eu finalmente fui expulso do colégio após três reprovações - praticamente - seguidas, além de dezenas de idas a diretoria, suspensões e mais alguns detalhes que não vem ao caso. Mas eu juro que nunca explodi banheiro nenhum com bombas ou o diabo que o valha. Eu gosto de outro tipo de barulho. Foram tempos difíceis lá em casa, a coisa novamente não estava fácil pra ninguém na transição pra nova moeda - o Real. Nesse ano, eu com 15 anos, disse para minha mãe que estava afim (sic) de começar uma banda e ela não gostou da idéia, pois era para eu estudar e me esforçar para perder o tempo perdido nos meus últimos anos escolares. A principio não resolveu muito, exceto pelo fato de eu estar finalmente conseguindo clarear a nevoa rebelde que havia tomado conta da minha vida desde, praticamente, o ano de 1989. A vida é cheia de coisas falsas e mal resolvidas, mas com o passar dos anos as coisas vão ficando mais claras, e as pessoas mais hipócritas e poderosas. Danem-se.

Acabei levando minha guitarra e meu pequeno e pesado amplificador Staner para o outro lado da cidade pra tentar um ensaio numa banda que não durou mais que alguns minutos. Caso tivesse dado certo, a formação relâmpago da boteco-promissora “Teenage Depression” teria sido moldada com o Creator na bateria, o Marcelo Galvan (ex-Fahrenheit 451) na outra guitarra, o Fabinho Punk (Depois do Fim) no baixo, além de mim. Alguns minutos de ensaio bastaram pra descobrir, que minha precária técnica e autoconfiança como guitarrista, não se encaixou com a deles naquele momento. Naquela noite de verão, voltei para casa, cansado e frustrado. Talvez ali eu já estava decidido a não me importar tanto com a minha Gianinni Stratosonic. Alguém se lembra do filme “A primeira transa de Johnattan”? Acho que acabei assistindo antes de ir dormir.

Algumas semanas depois, o Marcelo montou o Cyclone Pill com o Duda (ex-Fahrenheit 451) e o Daniel (baterista do Depois do Fim), eu por outras vias acabei sendo convidado para cantar num ensaio da banda de dois irmãos e um primo. Os caras estavam na pira de fazer banda há um tempão, mas ainda não haviam definido nada, contudo já tinham a bateria, e o Lucas não tinha mais que ficar dando baquetadas num velho hack de televisão e numa caixa de papelão como eu escutei falar.

Os Spaghetties aparecem realmente como banda no final de 1994, após meses de ensaios, porres e brigas. Também pudera, a banda era essencialmente formada por três caras da mesma família, com mais um adolescente desbocado e arrogante. A gente também ensaiava no quarto do Marco, em escaldantes tardes de domingo. A barulheira contaminava a vizinhança e o também projeto de igreja "Poço de Água-viva", bem em frente a casa na Vila Brasil. Acho que um "amigo" até pichou, na frente, algo do tipo "Deus não é surdo".

Eu admito que nos conhecemos basicamente indo a shows do Hard Money e outras bandas que tocavam nos eventos promovidos por eles, mas mesmo tendo aquela cena como referência no começo, a nossa vontade era de ser mais Rock and Roll, mais despojado, e não punk no sentido “clichêmático” e, assim, seguir um estilo mais antigo e marginal, menos mistureba. Queríamos trazer de volta as pegadas mais abertas e bem tocadas ou por que não mais suja no sentido visual?

Nosso primeiro show foi numa tarde de sexta-feira no mesmo Colégio onde eu havia sido expulso, um ano antes. Creio que, no fundo, eu precisava trazer algo de volta, dar o troco de alguma maneira menos bíblica. A gente fez acontecer e a estréia foi certeira. Tocamos bem e com confiança. Na platéia do pátio havia somente uma meia dúzia de amigos, mais um monte de gente desconhecida andando pra lá e pra cá. Acho que estava rolando uma gincana, mas uma turma ficou pra ver a gente no pátio do hall de entrada. Ainda éramos uma banda cover, e tocávamos somente Ramones, Sex Pistols e Buzzcocks, talvez também tocássemos The Jam.

A "The Spaghetties" foi, sim, a cria descarada da banda Fahrenheit 451. Eu pensava neles como referencia local assim como nas bandas que a gente escutava. Eu assumidamente não curtia as bandas da época (nem locais nem de lugar algum) e me lembro que os amigos mais velhos sempre nos gravavam fitas incríveis ou emprestavam seus Lps.

Talvez eu tivesse tanto pra falar sobre aquele período excitante da nossa primeira banda, contudo acho que estou falando demais por aqui e o que aconteceu na seqüência é simplesmente outra história. Esse tipo de diversão é sempre suculenta e dolorosa no decorrer dos anos. Ok, isso é Rock and Roll, e Rock and Roll significa arte, por que não liberdade e prisão em forma de devoção e paixão, altos e baixos, brigas, aventuras, trapaças e amigos pra sempre.

Sinceramente, eu duvido que a cidade e algumas criaturas tenham continuado sendo as mesmas.

Acenda o pavio da bomba de cereja.



Rodrigo Amadeu/32 – ex-vocalista e baixista dos "The Spaghetties".

13.1.10

DOO BOP ESTÚDIO apresenta ROCK’N’ROLL LONDRINA BANDA: FAHRENHEIT 451

FORMAÇÃO: Dimas Gimenez (Vocal), Duda Victor (guitarra), Lincoln Alexandre (guitarra), Marcelo Galvan (baixo), Márcio Galvan (Bateria).

INÍCIO: 1990 TÉRMINO: 1992

BANDA: FAHRENHEIT 451 == Essa história deveria começar em 1990, que foi quando começamos a morar juntos em Londrina para estudar e aí formamos a banda. Mas na verdade essa história começou alguns anos antes

Em 1985 na cidade de Umuarama, formei uma banda junto com Marcelo Galvan, Rossano Totino, chamava Incógnito; o Márcio Galvan quando vinha a passeio na cidade, tocava bateria com a gente.
Naquela época, sabíamos da existência de outro grupo de rock, que tocava a um tempão em Umuarama, chamava “General X”. Um dia, num clube dessa cidade, fomos participar de um evento, na passagem de som, enquanto esperávamos a nossa vez, entrou uns “caras” cabeludos, com seus jeans surrados, queriam participar do show e não sei porque não os deixaram participar, acho que os organizadores do evento ficaram com medo dos rapazes. Logo na sequência, nós conversamos pela primeira vez, então conheci o Dimas, o Lincoln, o Tantan e o Jumps, esse foi o primeiro contato que eu tive com os figuras. Já tinha os visto tocarem uma vez numa praça pública, achei muito legal o som. Eles eram mal vistos na cidade pelo visual que usavam, confesso que foi à primeira banda de rock que tive contato direto. Depois desse evento, começamos a trocar ideias. Em 1987 o Dimas passou no vestibular de Jornalismo na UEL e mudou para Londrina, o Valquir e o Lincoln foram com ele, moravam juntos, numa casa que alugaram.
Em 1990 é que fui para Londrina cursar Educação Artística, aluguei uma casa de um quarto só, na rua Canudos em frente do restaurante universitário o Marcelo Galvan e o Valquir estavam comigo, nessa casa chegamos a morar em cinco pessoas, todos de Umuarama, dentro de um quarto, cozinha e banheiro. Começamos a fazer as primeiras músicas já que o Dimas morava na Casa do Estudante, ficava em frente e sempre estava com a gente. Não tínhamos grana para nada, éramos completamente “durangos”, mas sempre abastecidos de bebidas e drogas pelos camaradas que viviam passando por ali. Nessa casa se formou o Fahrenheit 451. Logo iniciou os ensaios e as composições. Havia muitas festas universitárias, shows de bandas na cidade. Um ano depois o dono da casa não aguentou mais e nos convidou a sair, então alugamos uma casa próximo ao Zerão. Essa era grande tinha dois quartos e sala. Um dos quartos ficou para os ensaios e a coisa pegou ritmo. Ensaiávamos quase todos os dias e montamos um repertório com umas sessenta músicas. Estávamos prontos para lançar a banda. Fizemos contato com a Gabi, dona do “Araucana”, que era um bar na rua Pernambuco e ali fechamos nosso primeiro show. Fizemos um cartaz bem legal, era uma foto do filme Fahrenheit 451, baseado em um livro de Ray Bradbury, de onde tiramos o nome. Colamos alguns cartazes pela cidade e fomos fazer o nosso primeiro show. Por incrível que pareça o lugar lotou. Foi uma daquelas noites loucas,todo mundo dançava, chapava ao som da banda. Estava feito os “rockers” mais “fudidos” e quebrados da cidade, mas éramos autênticos. Uma semana depois, voltamos no Araucana para o segundo show, como o primeiro foi muito bom. Começaram as festas em repúblicas e bares da cidade. Nossa casa no Zerão não fechava a porta nunca, dia e noite pessoas entravam e saiam, dormiam pelos cantos da casa, faziam suas loucuras. Às vezes eu chegava de madrugada e não tinha onde dormir. Um dos quartos estava sempre fechado com alguém, com alguma garota dentro. Morámos um ano nessa casa e foi o período mais forte da banda, onde aconteceu a maior parte das loucuras, sexo e consequentemente os problemas.
Bebíamos muito, não tínhamos dinheiro. Criamos uma relação de convivência, aconteceram muitas coisas boas e algumas ruins, a convivência pesou devido às relações de cada um com as garotas. Vivemos três anos de muito sexo, drogas e rock’n’roll era o queríamos fazer naquela época. Recebemos até uma proposta com um bom cachê pra fazer um show, depois que a banda acabou, só que já não tinha mais clima.
Não tem como escrever a história do rock em Londrina sem passar pelo Fahrenheit 451, influenciamos a molecada que começavam com suas bandas e as pessoas que iam aos nossos shows. Isso tudo aconteceu de 1990 até 1992. Com certeza foi “ducaralho” estar junto com esses figuraças e participar de tudo isso. Ficaram algumas lembranças, porque as coisas aconteceram muito rápidas, não dá para lembrar tudo, ficou uma relação entre nós e outros amigos que conheci e que será eterno.

ENSAIOS: No início, quando morávamos na frente do restaurante universitário, os ensaios eram feitos somente com violões, não tínhamos equipamentos e nem espaço. Depois mudamos para uma casa ao lado do Zerão. Nessa casa compramos o básico para iniciar, ensaiávamos quase todos os dias. Os vizinhos reclamavam muito, mas não adiantava. Uma vez, depois que o Dimas, o Marcelo e o Márcio mudaram para outra casa na rua Góias, chamávamos essa casa de “Repa”, fiquei sozinho no Zerão, então roubaram minha guitarra e um amplificador, um dos vizinhos disse: “Por que não roubaram a bateria?” Porque o Márcio batia muito forte e fazia muito barulho. Daí em diante, mudamos os ensaios para a “Repa”, que foi a última fase da banda, compramos mais equipamentos e melhorou um pouco a qualidade dos ensaios, mesmo sem ter acesso a equipamentos importados porque era muito caro. Logo começamos a preparar nossa primeira “Demo” que nunca terminamos. Fizemos também nessa casa algumas festas com som ao vivo e muitas loucuras, mas já não estava do mesmo jeito. Não tínhamos recursos para gravar, tentamos de várias maneiras, com equipamentos emprestados, ajuda de amigos, porém não tivemos bons resultados. O Bruno Iglesias, guitarrista da banda Gólgota, ajudou nas tentativas de gravações. Acho que esse é o principal buraco deixado pela banda, não gravar nada. Continuamos juntos por mais um ano, fazíamos ensaios, shows e profissionalizava mais a banda. Também desviamos do caminho por problemas pessoais de cada um e de todas as loucuras que aconteceram. Essa casa também durou um ano que foi a última fase da banda. Depois que entregaram à casa a banda acabou.

COMPOSIÇÕES: Como passávamos muito tempo juntos, fizemos várias músicas. Ainda lembro: Sunshine Makers, No Mans Land, Psicose, Sandman, O vento, Do you gonna do, She's my big bomb e muitas outras composições. Todos participavam, com ideias e depois fazíamos os arranjos.

SHOWS: Fizemos muitos shows. Tínhamos amigos de outras bandas como Gólgota,Psicodeath, Convulsão alias o Silvio, baterista, nos ajudou no começo, ele deixava a gente fazer alguns ensaios no estúdio, Quando o empresário Emerson Abelha abriu o Gran Mausoléu, o melhor bar de rock da cidade na época, trazia bandas de fora e convidava a banda Fahrenheit 451 para tocar junto. Um dia ele chamou a banda Cólera e convidou a gente para tocar, foi um show muito legal; no Zerão tocamos com uma banda gospel, Katsbarnéa, neste show os seguranças não deixavam a molecada subir no palco para pogar, mas o Dimas no final do nosso show intimou o público e o palco encheu, todos dançavam, agitavam, eu não conseguia ver os caras da banda. Fizemos shows em vários locais da cidade de Londrina e em algumas cidades pequenas do interior do Paraná. Algumas histórias engraçadas aconteceram. Uma delas ocorreu numa cidadezinha do interior, era o último comício do principal candidato da cidade. Nosso problema começou no hotel, porque antes de ir para o show, acendemos uns baseados, enquanto pegávamos os instrumentos, a porta do quarto ficou aberta, o cheiro se proliferou pelo hotel, vieram os responsáveis, ameaçaram chamar a polícia e saímos meio que na correria. Após o show as garotas nos cercaram para autógrafos e tal até pegaram os tênis do Dimas. Outro show muito divertido foi em Ponta Grossa, na verdade, nesse dia, uma banda não apareceu, então chamaram a gente para tocar no lugar deles, teríamos que dizer que éramos de São Paulo e pediram para que não falássemos muita besteira. O Dimas começou o show dizendo “boa noite Ponta Grossa, cidade fria pra ca...ramba”, isso esta gravado em alguma fita cassete perdida em algum lugar, depois ele anunciava um som, mas quando olhou pra trás o Márcio não estava na bateria, então disse: “assim que o baterista voltar”, ele estava no camarim se concentrando um pouco mais. Em Londrina fizemos um show no calçadão, tínhamos incluído no cachê uma garrafa de vodca, sempre exigíamos muito álcool em nossas apresentações. Não deram, porque achavam que poderíamos criar problemas. Ok. Aí tivemos que nos virar e arrumamos a nossa garrafa de pinga. Fiquei tão bêbado nesse show, que depois de algumas canções o Dimas perguntou ao público se queriam um som mais agitado ou uma balada. Eu, bêbado como estava, peguei o microfone e gritei “Rock’n’Roll”, para que tocássemos algo mais porrada. O Lincão me emprestou um pedal de guitarra já que ele não pôde tocar nesse dia. Eu perdi o pedal, ou pensei que tinha perdido, o achei um mês depois, atrás do amplificador. Duda Victor – fevereiro de 2009.

CESAR SUMIYA O CARA Q CONVIVEU COM A BANDA‏

Conheci a legendária banda Fahrenheit 451 em 1989, através do então estudante de jornalismo Tony Hara. Estava morando em São Paulo, meio que retornando a Londrina e ele me levou a uma república na rua, Paes Leme, perto do Zerão, de onde surgia uma música altíssima e de altíssima qualidade, se não me engano Buzzcocks.
Espantou-me e como a música era bem tocada. Era um ensaio do Fahrenheit 451: Dimas de Jesus (Vocal), Duda Violada (Lead Guitar), Lincoln (Rithim Guitar), Marcelo Galvan (Bass Guitar) e Márcio Galvan (Drums). Posteriormente eles tocaram algumas composições próprias uma mistura bem dosada de hard rock 60, punk rock, uma pitada de Beatles e a adorável performance “Jaggeriana” de Dimas. Vale lembrar que lá também morava o Eduardo, ele não fazia parte da banda, mas era um agregado do grupo. Eles estavam em Londrina para supostamente estudar. Dimas fazia Comunicação, Marcelo e Duda Educação Artística, Márcio Computação e Eduardo um curso supletivo, mas o objetivo final era fazer Rock'n Roll. Eles eram todos de Umuarama e se espelhavam no exemplo de um amigo daquela cidade, Alex Totino, que acabou tocando na banda novaiorquina Das Damen. Ao final do ensaio conheci o pessoal e nasceu uma amizade que perdura até hoje. Lembro que nessa noite, ficamos conversando longamente na varanda da casa até quase o sol raiar, o assunto era logicamente rock'n roll, interessante o fato deles, gostarem de coisas sixties como mod e surf music (minha praia). O espectro de interesse deles incluía o blues e o jazz, foi a primeira vez que encontrei de uma só vez tantas pessoas com interesses semelhantes aos meus, inclusive em outras áreas como a literatura, eles adoravam a Beat Generation e o cinema, afinal Fahrenheit 451 é o título de um maravilhoso filme de Truffaut. Logo começamos a trocar informações. Eles vinham a minha casa para gravar fitas K-7, de coisas tão díspares que iam de Miles Davis a Beach Boys, passando pór Walter Smetak e Circle Jerks. Trocávamos livros e HQ's, às vezes eu tirava letras de músicas que eles pretendiam tocar, a mais insólita delas foi o tema do seriado infantil Banana Split, uns seis anos antes do CD Saturday Morning. Aos poucos o Fahrenheit 451 passou a se apresentar na cena underground londrinense. Eu destacaria particularmente duas em especial, a do lançamento do Fanzine Portugueis Klandestino de Tony Hara, Rogério Ivano e Tony Strauss, realizada no auditório interno da Concha Acústica e a da pós-inauguração do bar Gran Mausoléu do também lendário promoter Emerson Abelha, local onde se apresentaram literalmente todas as bandas relevantes do cenário independente brasileiro dos anos 90. Essas duas apresentações resumem muito bem o perfil da banda.
A primeira foi um mix de literatura, poesia, artes visuais, happening e muito Rock'n Roll. Entre uma música e outra havia alguém que declamava um poema publicado no zine, do nada surgiam enormes sacos plásticos, vermelhos transparentes, cheios de ar que eram trucidados pelo público, nas paredes e no chão cartazes coloridos com frases retiradas do zine, trechos de letras das músicas do Fahrenheit colados de maneira aleatória como num cut-up de William Burroughs, proporcionavam múltiplas leituras, um primoroso trabalho de iluminação focava sob diversas cores não somente a banda, mas eventos programados ou não, que aconteciam na platéia. De certa forma essa proximidade do rock pesado com a literatura e a poesia inaugurada em Londrina pelo Fahrenheit 451 nessa apresentação, precede as bandas de Rock Poetry que temos hoje na cidade, como os Benditos Energúmenos e o Bonus Trash, ambas tiveram a participação do ex-Fahrenheit Duda Violada no elenco.
A segunda inaugurou a série de shows histórica do Gran Mausoléu, que trouxe a Londrina, no início dos anos 90, bandas como Pin-Ups, Garage Fuzz, Cervejas dentre outras. Havia uma dúvida entre os organizadores do evento sobre qual seria a melhor banda para abrir a série de shows, a única unanimidade era que deveria ser uma banda de Londrina, havia outras bandas fantásticas na época como o Killing Chainsaw, Core, Convulsão e o Gólgota, decidiu-se então pela banda que mais tivesse a cara de Londrina e era a banda dos garotos de Umuarama. Eu como designer gráfico oficial do Gran Mausoléu, tive o prazer de fazer o cartaz desse show. O bar ficou superlotado, pela primeira vez uma banda da cidade conseguiu essa proeza. A apresentação foi algo sublime, a empatia com o público que lotava o local era total. O Dimas (vocal) tinha uma capacidade impressionante de interagir com a platéia. O curioso dessa apresentação do Fahrenheit foi o fato deles conseguirem juntar diversas tribos que aparentemente não se bicavam, como punks, headbangers e skatistas, num ambiente de pura festa. Muitas pessoas dessas tribos começaram a se falar graças a essa característica ecumênica que Fahrenheit 451 imputou ao Mausoléu nessa apresentação. O bar se tornou a partir daí o ponto de encontro de todos os que curtiam rock, sem distinção ou rótulos. Nesse show firmaria-se outra marca registrada da banda: a performance espetacular de Márcio Galvan na bateria, em grande parte, das músicas começaram a aparecer longos solos esmerados de bateria. Márcio era um aficionado por Gene Krupa, Art Blakey e John Bonham, de quem se espelhava para elaborar seus solos.
Eu diria que esses foram os anos áureos do Fahrenheit 451, onde eles produziram suas melhores obras que podem ser conferidas em algumas demo-tapes e gravações de vídeo que perambulam pelas mãos dos arqueólogos do rock da cidade.
A banda se desfez pouco tempo depois. Aquela república, que era um templo do rock, passou a ser frequentada por um bando de desocupados, meninos maluquinhos, suposto rockers, para quem o rock se resumia em Titãs e gruppies tresloucadas. Essas figuras impediram a continuidade do trabalho de criação dos garotos, atrapalhavam os ensaios, tentaram fazer do local uma filial de Woodstock, que ao final parecia mais com Gimme Shelter. As pessoas que de alguma forma contribuíam com a banda, passaram a não frequentar mais a casa. Dimas engravidou uma das gruppies e foi forçado a tomar jeito na vida, formou-se jornalista e começou a atuar na área. Márcio pirou total e depois de uma over da cidade foi morar com a mulher em Mato Grosso. O Lincoln mudou para Rolândia e começou tocar numa banda de blues, Blue Up. O Duda e Marcelo continuaram a fazer música em Londrina. Trabalharam com Mário Bortolloto na musicalização de poemas e formaram a banda Cyclone Pill, nessa época fiz minha última colaboração com os garotos, à letra da música White Desire presente no trabalho Punkadavercanção.
A partir daí me ausentei de Londrina por sete anos, perdi contato com todos. Quando retornei tive uma grata surpresa: Marcelo e Duda formaram a banda Búfalos D'Água, de Surf Music (minha praia) e no trabalho que estavam elaborando regravaram White Desire com o nome de Surf Desire, numa releitura no melhor estilo Dick Dale. As pedras continuam a rolar. Relato Pessoal por Cesar Sumiya

por mim mesmo

Meu primeiro contato com a Banda Fahrenheit 451, foi no final de 1991, indireto e natural e posso dizer também que foi o meu primeiro contato verdadeiro com uma banda de rock and roll.
A banda era comentada, por um bando de moleques, que ralava de skate, bicicleta e carrinho de rolimã, na ladeira, final da Rua Paes Leme, eram cabeludos aparentemente amigáveis da vizinhança.
Num final de tarde, rodando com a molecada, eu finalmente escutei uma banda, tocava dentro de um quarto, numa das casas de madeira, próxima à esquina da Rua Paes Leme, que leva ao anfiteatro do Zerão, naquela época eu estava de férias e ia pra lá quase todos os dias, só voltava pra casa quando escurecia.
Lembro que a banda tocava, enquanto nos ralávamos no asfalto. Na mesma época, andava com o Dudinha e alguns amigos da redondeza, que estudavam no “Vicentão”. Eu comecei a ver os cartazes colados pelas paredes dos botecos e padarias da redondeza, onde comprávamos paçoca, pão de sal e jogávamos fliperama.
Uma vez, sem querer eu escutei um barulho que vinha do anfiteatro do Zerão, eles ensaiavam e eu peguei a passagem de som, acho que não era a banda completa naquela tarde, eram três e ali os vi pela primeira vez.
Menos de um ano eu comecei a sair à noite, escutava os burburinhos da cena rock and roll em Londrina, era a época de bandas como Hard Money, que tocava os clássicos dos Ramones no D.C.E., das cervejadas no R.U., reuniam bandas como Chaminé Batom, Beco e claro Fahrenheit 451, a banda da casa de madeira.
Eu imediatamente virei fã, desde a primeira vez em que os vi ao vivo, num lotado show gospel no anfiteatro do Zerão, numa tarde de sábado. Na mesma noite eles tocaram com Cólera no Bar Gran Mausoléu e após levar umas porradas na Rua Quintino, ainda consegui pegar o segundo show da banda naquele dolorido sábado.
Depois de algum tempo, ainda rolavam cartazes de supostos shows dos caras, mas eles já haviam parado de tocar. Uma vez saí com uns amigos que seria no futuro os meus companheiros de banda, atrás de uma suposta festa que nunca existiu. Passou um tempo, fui num festival no Moringão e a banda estava no cartaz. Falei com o Marcelo (baixista), e ele disse que tocaria se os caras aparecessem. Ninguém apareceu. Certamente a banda já havia acabado há meses, foram colocados no cartaz porque os punks, organizadores do festival, eram fãs da Banda, época do Mausoléu e dividiram o palco com eles em noites alucinadas. Foi aí que fiquei amigo do Marcelo, ele estava terminando o curso de artes, tentamos montar uma banda juntos, o Teenage Depression, não rolou.
O Marcelo e o Duda formaram o Cyclone Pill, e eu acabei engrenando com os meus novos irmãos do rock and roll, Os Spaghetties, as duas bandas daí em diante, tornaram meio que parceiras nos ensaios e nos shows. Isso foi em 1994 e as músicas do Fahrenheit 451 eu conheci, por fitas cassete, que o Duda nos emprestava para gravar.
Estranho ter conhecido as músicas do Fahrenheit 451, muito tempo depois da banda ter acabado. Lembro de um show no Bar Gran Mausoléu, o público pedia para tocar, Do You Wanna Dance, só metade da banda sabia tocar a música e a outra metade pegou na hora, foi muito louco. Havia uns 15 punks que pulavam atrás de mim, eu não podia dançar direito porque havia acabado de perder o botão da minha calça jeans.
Descanse em paz meu caro Dimas Gimenez: o resto é conversa.
Rodrigo Amadeu, fevereiro de 2009.

4.1.10

reticente

to comecando achar que eu vivo num mundo levemente a parte da maioria dos meus amigos. nao e nada demais, so algo que escolhi e acabei caindo dentro... imagine um tombo bebado num barranco de auto-estrada as duas da manha tentando mijar no escuro, em meio a um black out da natureza. ok, mas nao perco meus oculos tao facilmente e a equanto a grama estiver fofa eu nao me importo com o orvalho da madrugada. se tiver pedra no caminho fica mais perigoso caso bata com a cabeca e tal... voce me entende?

comecou o ano e levemente vou me despedindo do meu inferno astral. minha cabeca ainda parece uma roda gigante cheia de altos e baixos e visoes que se repetem e se alternam. nao to nem ai. nao devo nada pra ninguem. voce acredita em inferno astral? to pra completar 32. fazia tempo que nao soltava um post tao grande...

tem escurecido mais cedo e ta frio pra caralho na ilha da velha. paga se o preco no inverno londrino, ninguem escapa da garoa e da cristalinizacao dos telhados e dos tetos. aguardo anciosamente pelo mes de abril. gosto da cidade sob o sol e o vento gelado baguncando os cabelos dos perdidos na rua.

ando me jogando ainda acho. as vezes tambem acho que ando parado demais e tem se a impressao da reducao de certas expectavivas. experimente ficar tres anos e meio longe de tudo e de todos, exposto ao mundo , ao tudo e ao nada.engolir merda as vezes ta no pacote, ser feliz ta no pacote, entrar em estado de tri-polaridade (essa e bem loca) ta no pacote, nao entender certas coisas ta no pacote, ficar bem locao ta no pacote, ficar em cima do muro ta no pacote... nao vou reclamar agora!

nao sou um cara reticente. qual o rumo desse post? post precisa de rumo? o blog e meu e eu escrevo o que eu quiser. voce gosta de guitarras? voce gosta de discos? a maioria prefere camiseta de bandas e faixas em formato mp3. voce acredita em revolucao pos strokes? eu acho uma barbada infame de terceira categoria. um joguinho engana trouxa que cola bem quando voce tem alguem que conhece algo que as pessoas nem imaginam existir. putz que merda previsivel. eles tinham um produtor que os ensinou a fazer certas coisas. voce ja escutou a regravacao de life's a gas (the ramones)? orra, da a sensacao de que o professor de guitarra se juntou ao produtor pra tentarem fazer uma grana em cima de um cover que plajeia um nome de um classico, se eh que voce me entende... ok, fui reticente. nao prometo ser menos.

voce ainda recicla os sons da capital? voce ainda acha que tua cidade e um sitio iluminado enchargado de universitarios mais que descolados e fazendo a parada acontecer? acho que fizeram isso com a minha cidade. o mito das bandas cover e seus momentos de euforia com o publico estudantil londrinense. hum, eu era tratado como lixo passando o som no velho valentino as vezes. nem o cara do bar nem o cara do som , nem o cara da rua... perguntem pros meus amigos como funciona a coisa. o pastel da feira explica melhor que qualquer um. nao tente acordar os mortos meu querido, voce jamais conseguira...

28.12.09

so it goes again

esse foi o ano em que eu chutei pedra, esmurrei ponta de faca (mas quem nao?), amei, gritei, chinguei deus e o mundo, mandei tudo a merda, pedi perdao e aqui volto a me redimir e a admitir que nao sou e nunca fui um cara infeliz.

esse foi o ano em que meus amigos se recuperam de perdas imensuraveis, emocoes cachassisticas, muito frio, muito calor, ossos quebrados e alguns quadros clinicos milagrosos.

esse ano tambem descobri que minha mae ficou seriamente doente, bravamente encarou um tratamento que poucos suportam e tem encarado uma rebarba quimica fortissima por conta de algo em que eu prefiro nem lembrar.parabens pela forca mae, essa me deixou boqueaberto e a outra parte do coracao eu tive que pegar no chao. nao tem problema agora, tudo vai passar.

esse foi o ano em que nosso amigo mario bortolotto foi saraivado por balas infelizes mas inaptas e incompetentes.muito bem, seria demais pra cabeca, mas nao foi. seja bem vindo de volta mariao.voce e um dos que simplesmente jamais mereceria passar por essa. nao voce.

esse ano tem passado rapido e acho que ele parte em dois dias ou menos.

na real eu quero que ele se va. vou ficar contente e esperando 2010 no portao de casa, ali no frio, ignorando os cidadaos do mal e sorrindo pra simplicidade das pessoas corriqueiras.

eu to afim de ver a parada melhorar pra todos os que amo e admiro.
o problema e que eu nao engulo merda e nao compro gato por lebre, dai acabo ficando com essa cara de quem nao entendeu nada... ok, nao adianta vai... tem nego ai fazendo merda, nerdizando a parada, fingindo de fodasso, pagando de gatao e levando o merito em cima dos trouxas que pagam pra isso. ok, cachorro quente e coca-cola tem em todo lugar.

feliz 2010 pra todos os meus amigos.

8.12.09

Hey Mariao, segura as ponta velho. Nao vai ser agora a vitoria da escoria.

23.11.09

eu era assim

simplesmente por que dai a noite cai e voce nao sabe do que esta arrependido. sim, hoje e segunda feira e elas costumam ser crueis com as pessoas que tentam viver a vida de um jeito milimetricamente fora do padrao. nao faz muita diferenca na real, exceto pelo fato de voce se considerar um sobrevivente de plantao.
me deparo com erros e repeticoes no meu cotidiano. me deparo com automoveis escancarados em esquinas desconhecidas e me culpo por isso. ando por ai num pique frenetico de desolamento e conforto de auto ajuda. jogo merda nas pessoas e na sua vontade futil de salgar a sopa alheia. adoro a vida quando ela funciona da meneira que eu penso que seria mais maneira. nao to aqui pra reclamar. alguem ai sabe onde fica o interruptor?

9.11.09

A CIDADE - 2...

certeza que voce prefere esse texto em primeira pessoa? ok. aqui vou eu.
em janeiro de 1978 minha mae pegou carona num fusca branco a caminho do hospital evangelico. estava na hora do parto e tudo aconteceu como deveria. muita agua rola na vida da gente a partir desse momento semi ludico.
a minha infancia na cidade nao foi realmente promissora quanto foi excitante na adolescencia. mas foi realmente um barato ter visto o programa alborghetti nos anos 80 assim como ter escutado o patrulha 830 em meados dos 90 as cinco da matina.
essas figuras sao os verdadeiros marcos tradicionais da apologia-nao-apologia-sim apologia ao crime do que viria acontecer.
eu toquei baby I love you num programa de radio am (em vinil) da cidade no final dos anos noventa as 8 da manha.
mas tambem foi excitante ter uma banda que excitava na cidade.
foram bons tempos de cerveja na cara, porrada na esquina e timpanos espanados. londrina era sim rock and roll pra mim.
ja entrei em igrejas ao amanhecer e cai em barrancos de rodovias negras em estradas norte paranenses. era um barato sair do carro pra mijar e desabar nos barrancos da vida.
londrina me dava porrada na cara, quebrava meus oculos e me fazia ir pro medico e tentar rever o que havia acontecido.
a cidade onde eu nasci se chama londrina. tambem cresci onde nasci.
a cidade me fez aprender que o calor me irrita e que a falta de ousadia nao muito me apetece. mas adoro pastel de feira, caldo de cana e musica brega em profusao. ate tentei acompanhar uma banda uma vez numa passagem de som no bar do jacare na avenida celso garcia cid la por volta de 1994. ali eu descobri que nao estava apto pra muitas variacoes musicais ate o momento. orra, eu tocava numa banda punk e nao de vaneirao. mas me lembro da bateria de acrilico do tiozinho. uma gope veiaca.
a cidade me fez ficar acido e fez minha cabeca despencar em sonhos revolucionarios por causa de suas luzes amarelas e da chegada da noite apos horas de sol escaldante e sarros pelas calcadas. ok, eu nunca serei voce, tampouco voce a mim. jamais me esquecerei.
a cidade me fez vulgarizar alguns dos meus proprios pontos de vista. com certeza o lanchao com tubaina do centro e muito mais acessivel e saboroso que comida de shopping center.
a cidade me ensinou a juntar as malas e a preparar o plano de fuga, mesmo eu nao sendo universitario e mesmo nao sendo o maximo do puro creme do milho verde.
a cidade disse nos meu ouvido esquerdo que a hora havia chegado.
ele me colocou e me tirou da depressao. me disse varias coisas legais durante o caminho e tambem fica me chamando de volta.sei que tambem me chama de idiota. e vai tentar tudo outra vez um dia.
mas eu ainda amo algumas esquinas, cheiros e sabores.
por que nao londrina?
talvez voce um dia entenda.

27.10.09

GODDESS, WEIRDO HERO and FLYING RATS



tenho gravado algumas faixas que vem sido produzidas por Miky Mestres, um amigo de barcelona. o material esta disponivel pra ser escutado no www.myspace.com/rodrigoamadeu e vem encrementado com o nome de Rods Amadeo (uma abreviacao do meu nome pro ingles + meu sobrenome original).
as tres faixas disponiveis no momento sao Goddess, Weirdo Hero e Flying Rats.
ando fazendo os sons, gravando as guitarras, vocais e baixo.
esse material tem sido divulgado como single virtual em formato de mp3 e talvez um dia vire trilha sonora de festa de garagem ou quem sabe de algum curta metragem.
entao por hora e isso. espero que voces gostem.

6.10.09

corina (intro)

Novamente amanhece nublado e chuvoso. Vontade de voltar pra algum lugar? Sei lá, acho que nem tanto nos dias de hoje. Apego material? Nem a pau. Somente uma xícara de chá preto e sem açúcar enquanto Arnaldo Baptista tenta alegrar o final da manha. Ele consegue sempre. Adoro as linhas de baixo com piano. Da hora. Ele vai voltar pra cantareira...
Esse blog precisa de posts eu acho. Ando preguiçoso nos dias de hoje. Aliás, sou um preguiçoso nato. Um velho gato gordo e sonolento em manhas de domingo, sei lá.
Eu sempre gostei dos pés de goiaba nas casas. Lembro de algumas casas abandonadas e cheias de mato crescido, misturado a entulhos e sempre havia um pé de goiaba imponente e saboroso em meio ao caos. Velhas casas de madeira e seus pés de goiaba. Tanto faz se da branca ou da vermelha.
Mesmo assim a temperatura dos árticos parece ser a mais alta dos últimos 2000 anos. Vi isso por ai num site da bbc. Vai derreter?

barganha 1

Não me canso de falar do mundo de fantasia que tenho tentado criar pra mim. Um universo encantado de coisas não muito lúcidas, creio. Não me importo mais com pequenos detalhes. Tenho construído (tijolo por tijolo) um abrigo subterrâneo que dentro em breve estará pronto pra ser habitado. Lá dentro também terei acesso a uma bolha de oxigênio mental e paredes cinza-prata-fosco.
Dai que se danem as garotas malvadas dos supermercados, os automóveis em velocidade, as catracas dos ônibus e dos metrôs, os edifícios, os seguidores religiosos e os (maus) carrinhos de cachorro quente. Quero os com salada fresca e mostarda. Não me encanto mais com esse papo de x-tudo ou novidades novelísticas. Será que existe um botão vermelho pronto pra mandar pelos ares alguns canais de televisão? Por favor, diga que sim.
E
ssa não é a hora de reclamar acho, mas também não é a hora de parar a construção da fuga. A fuga. Eu quero a fuga. Quero logo. Quero a desparafuzação da cidade o quanto antes, a introdução (não temporária) dos vigilantes da picaretagem e dos exterminadores de burrice. Às vezes eu imagino algumas instituições sendo automaticamente deletadas da sociedade humana. Imaginem o plim plim sendo desligado pra nunca mais? Uau, que pena que isso não vai rolar tão cedo. Eles vão cobrir as Olimpíadas de 2016 e vão lucrar um bocado com isso. Que péssimo imaginar. Quanto será a barganha?

19.8.09

15.8.09

Sonhos Agradáveis

Ainda ando por ai ou deito na cama à procura de sonhos agradáveis. Talvez uma fonte barata da felicidade apta a me isolar em alguns pontos ainda frescos e virginais da cidade. Momentos em que a cabeça se isola das paradas de sucesso, das tendências da moda, dos cults em movimento, dos automóveis, dos arrogantes, pretensiosos, fedidos, perfumados, das pessoas chatas e das super legais também. Andamento natural das coisas. Eu preciso desses sonhos agradáveis. Eu preciso fugir e relaxar. Essa freqüência é a mais bem vinda de todas. Principalmente agora.

Todo transtorno necessita ser cessado nesse momento. Que venha à tona as capas de discos, as velharias guitarrísticas, as lembranças dos amigos, os desejos não materiais ou a descontração das falas ornamentais em pontos de ônibus ou salas semi-vazias de escritório. Não posso estar falando tão sério. Talvez não tivesse se não fosse pelo fato de o peso do dia a dia e da solidão humana estar sempre me cobrando isso. O tempo todo. De hora em hora, de minuto em minuto. Principalmente nesse momento. Daí é hora de sonhar e acertar as contas com as coisas boas e puras. Posso estar meio loco pensando assim ou talvez arrumando uma desculpa qualquer pra almejar as coisas, mas simples. Entendo que pode ser isso, mas continuo genuíno no meu ponto de vista. Embromar o subconsciente com sobremesas subversivamente puras e inocentes pode ser um bom caminho pra desativar a pena da solidão. Mas não se trata de melancolia. Talvez apenas um ponto negro que se transforma numa sala escura e que pode surpreender a abertura de uma porta ou janela que vai lhe permitir a entrada ou um pulo a um mundo quadrinístico ou quem sabe fonográfico. Talvez uma estória em quadrinhos recheada por tons verde abacate, vermelho kitsch, cinza e amarelo claro. Quem sabe uma pequena tela em preto branco em movimento também apareça do nada pra refrescar o teor do sonho. Simples e engraçados curtas de cinco minutos e caoticamente mudos. Sem legendas ou mais informações. Daí eu posso me abstrair no segundo minuto e transformar os fatos previsíveis em viagens mais curtas e divertidas. Meu coração dói um pouco agora. São coisas que a vida me proporciona por que eu me jogo nela pra ver o que acontece. A sessão do amor em intermináveis dias e com direito a um retorno confuso e imprevisível... preciso ir agora. Apareça sempre.

11.8.09

A CIDADE - 3



E a cidade talvez ainda traga consigo suas figuras tarimbadas, carimbadas e clássicas. Nunca ultrapassadas ou obsoletas. No entanto nos novos tempos, esses queridos bigatos da fruta se isolam em nervosas e entediantes tardes de muito sol e dão as caras na cena bar do Jaime numa freqüência semanal de sextas ao entardecer. Dá-lhe costelinha de porco com mandioca e limão, cerveja e papos frenéticos regados a copos americanos vazando espuma fresca de cevada. Óbvio que alguns preferem rabo de galo, branquinha, cinzano ou vodka barata. O que vale e o ritmo frenético adquirido com os movimentos bucais e as conversas mais que fruto-futurísticas em relação à cidade e ao delicioso caos mental adquirido ao logo dos anos. Algo que geralmente transcende o ritual diário e confronta-se com o igrejismo e o bucólico ritmo do grande sítio iluminado. A ex capital mundial do café. O palco cenário das atuas confusões políticas (que a impedem de progredir há praticamente algumas dezenas de anos).
Algumas figuras ali teriam andado com warhol, jagger, dali, bukowski, leminski, hell, verlaine, ramone, smith, belinati, moon, wilson ou talvez seu lucilio lu lu nos tempos em que Álvaro Dias dava as caras na lanchonete Estoril. Vários petiscos frescos, salgadinhos exuberantes e ampolas e mais ampolas de chateau, country wine, vinho natal, mas não guaravera acho... Ali já é um ambiente mais refinado e elegante.
Londrina se transforma em uma Nova Iorque ríspida e decadente e o velho bar Potiguá (agora numa posição mais central e menos semi suburbana) em uma espécie de CBGB/100club pras imaginações mais férteis dos carentes roqueiros punks que um dia tiveram suas 500 ou mais noites de farras, festas, porradas e porres marcados na conta pro final do mês.
Produtores, punks, artistas, arteiros, escritores, figuras na fila da lei de incentivo, junkies, artistas plásticos, poetas, rapazes suaves e mocas do sapato grande também fazem parte da cena, tendo como prato principal a clássica feijoada com vinagrete aos sábados pelo almoço no bar do Jaime. (reprise).
ok, estamos falando da cena. Não se trata da infantil cena hard core melódico da infeliz segunda metade dos anos noventa – começo de 2000, que abriu alas (mal abertas) pra juventude emo-tv... ok, ninguém tem culpa disso, tampouco eu... trata-se de uma cena mais centrada para as noites em que o edifício Centro Comercial treme à sucção das linhas brancas que brilham ali no fundo do prato, na capa do cd, que corre pelas cédulas de dez reais e transforma a cidade em algo mais excitante, abominável e quente, enquanto Lou Reed refresca o imaginário das conversas ininteligíveis através do clássico orelhão vermelho. Mandrake também teve seus tempos de concha acústica, assim como figuras cáusticas que se transformam gradualmente em cidadãos evangélicos de passado negro e boa reputação e bom tom atual. A cidade borbulha e espirra caldos grossos e quentes pelas redondezas do norte do estado.Claro que ninguem nota.
Mas note você agora que a mesma coxinha permanece ali quente e esturricada na estufa por horas, mas sem perder o sabor e o charme. Acrescente molho inglês, especialmente antes da segunda mordida, e sinta a sordidez da carne de frango amarelada, ressecada e saborosa. Fanta acompanha bem.

4.8.09

Goemon com maionese




Cachaça, rock e bancha esbanjam o exótico front man no seu primeiro e único álbum de 1985. Lembro de sempre ver esse disco na casa da Cris por anos e anos. Às vezes eu pegava na mão e dava uma lida no encarte interno. Me lembro de talvez ter colocado na vitrola uma vez ou outra. Também lembro dum encarte com letras e ficha técnica. Por onde anda Goemon?
Voltei a pensar nele depois de assistir novamente ao filme “O Invasor”. Não sei por que, mas algo me dizia que o japonês (que canta no karaokê na cena em que o cara vai comprar o revolver no bar na liberdade, na curta participação de Joeli Pimentel) seria sim o próprio Goemon. Um Goemon mais velho, magro e careca cantando de óculos escuros em clima japa-blues porrada.
Provavelmente não estou certo, mas prefiro imaginar todas as possibilidades de um possível retorno desse figura ano universo underground dos karaokes malditos da liberdade japonesa paulistana.
Mas Goemon está de volta. Consegui baixar todas as faixas do LP homônimo e da sua intitulada demo tape 1993. Me lembro desse ano de 93, que me marca por algumas coisas como a primeira cerveja ou talvez a vez que apanhei na Quintino indo ver os Fahrenheit 451 e o Cólera dividirem o palco no Gran Mausoleo, e as primeiras bandas porrada que vi na cidade. A cidade era diferente. A cidade era promissora, assustadora e excitantemente misteriosa.
As noites de chuva eram diferentes quando a cidade se calava pra sempre em noites de domingo. A cidade e seus automóveis já perigosos na noite adolescente e sombria... Mas conforme os anos foram se passando e as estórias se multiplicando, elas acabaram sendo esquecidas e apagadas em curto espaço-tempo. Falta glamour, falta Monroe. Mas Goemon é um profeta que compara Chico Picadinho com Jack The Ripper enquanto Paola prefere cair envolta no fog ao som do Big Ben. Pobre e revoltosa Paola que posa bêbada no Brasil e surge como mulher biônica em algum pais da Europa, trabalhando com homens casados, bêbados e donos de carangos incrementados. Bêbada ou não, Paola incendeia a terceira faixa do disco em tom surpreendente e inusitado. O descartável é bom, diz na televisão... O problema é o lixo né? E por ai vai.
Mas a minha velha cidade se perde em headphones entupidos de Shakira ilusões universitárias e falantes am/fm saturados de lixo, caretice e cruzes enquanto quadrinhos Ze Augústicos são rasgados e levados à fogueira pela nova geração.
Já foi a cidade dos scanners (alguem se lembra do sr. Paulo Troiano e sem programa abrasador em noites de sexta feira?), répteis, punks, putas, junkies, metaleiros, artesãos, vagabundos,travecos, notívagos, artistas, padres e atrizes que mantinham o balaco dos noticiários policiais e das notícias alternativas no polido jornal impresso local, enquanto o café caipira continuava a reanimar os sobreviventes nas fábricas e escritórios da cidade, enquanto o final da tarde não dava as caras pra aliviar o cansaço e reanimar as esperanças de que uma sexta- feira estrelada (londrinenses derretem na chuva) e rebelde logo apareceria dando as caras em tampas de freezers metálicos, bancos plasticos ressecados de bar e garrafas semi geladas de kaiser e Schincariol.
Ricos, famosos e cadáveres tambem enfeitam o horário nobre da televisão enquanto novos anuncios comerciais desfilam novos molhos de tomates com embalagens super praticas e coloridas em seus novos produtos italianados. A cidade também se rendeu a isso. A cidade também foi pra lá conferir tarantela, pomodoro e pomarola. A cidade se rendeu ao elefante da Cica. Também foram tempos de Nissim Miojo e Guaraná Kuat refrescando o efeito do bacon torrado misturado ao tomate frio do cachorro quente do tiozinho da esquina da biblioteca. Uma vez o bujão do carrinho explodiu ali mesmo. Ele se safou. Mas acho que caiu num auto ostracismo depois de uns tempos, mas o sabor jamais será esquecido.Vai maionese fio?

15.7.09

To loco mamãe?




Quando eu era criança um senhor cuja descrição de pai me perguntou: quando você crescer, você quer mandar ou ser mandado?


Já há mais de duas décadas eu respondo pra mim mesmo: ok, nenhum dos dois.
Cara, eu jamais faria uma pergunta desse tipo pra uma criança de oito anos. Enfim, os tempos mudaram e os primeiros raios de sol das manhãs de segunda feira geralmente indicam que você esta fodido. Fodido e mal pago. Fodido, mal pago e desvalorizado, já seguindo a crença de que quem trabalha é sim sustentavelmente digno do trabalho porque trabalha e se você trabalha, você é uma pessoa trabalhadora e honesta nos pontos de vista católico, apostólico, romano, televisivo, popular e corrosivamente fascista no sentido jugular da brincadeira. Mas cara, se você tem futebol toda quarta na grobo, super cine todo sábado à noite, se teu país para todo ano pra dançar e beber por três dias, se você tem novelas com tramas, romances e cenas incendiárias de sexo em clima cine prive
e sangue escorrendo pela televisão em horários x que mais lembram a versão do jornal notícias populares em forma de tubo de imagem, então por quê? Por que reclamar da vida? Por que reclamar como eu? Por que ser um vagabundo como eu? Por que não se deliciar? Por quê? Por que não? Eu to errado!
Eu não reclamo mais. Eu passo horas assistindo documentários sobre a segunda guerra mundial e as barbaridades hitlerísticas. Também gosto da guerra da Coréia e Vietnã. Eu fico assistindo e tentando entender alguma coisa que faça sentido. Talvez a brincadeira esteja aí. Eu não consigo entender nada.
Que diferença faz um canal de televisão maldito atrasando e ditando os fetiches inexistentes de um país por décadas ou aviões desfolhando florestas e dnas humanos por eras em intermináveis guerras em busca de controle e exploração? Ok, as
diferenças são várias, mas o conteúdo de ambos tem o mesmo nível de sordidez no meu ponto de vista. Ok, você é vietcong... Ok, tua barriga tá grande demais e você está fora dos padrões da novela... Ok, você tá fudido porque é pobre, mas pode comprar um Nike importado em mil prestações (e claro, correr o risco de ser morto por isso), mas lembre-se que os Nikes importados são fabricados também no Vietnã, assim como na China, Malásia e outros paraísos da manufatura escrava. Uau. Que texto sem graça.
Mas fala serio. Foi massa assistir seriados como Araponga, Segredo de Anita ou novelas como Roque Santeiro, Rainha da Sucata, Bebê a Bordo ou talvez Vereda Tropical e Cambalacho, mas eu ainda acho que o disco Blank Generation do Richard Hell mereça uma versão remasterizada com bônus e encarte explicativo. Talvez uma edição de aniversário atrasada em vinil com direito às informações inseridas no encarte do vinyl. Só lembrando que a capa cor-de-rosa disponível em cd não é a original. Você se lembra da capa bege onde ele desafia o comprador com uma cara de quem não dorme há anos, mostrando o peito rabiscado de you make me?
Richard Hell com certeza nunca assistiu a uma novela da Globo mas já apareceu na globo como coadjuvante do filme da Madonna, procura-se Susan Desesperadamente. Ele tamb
ém nunca foi ao Vietnã, mas num email me disse uma vez que gostaria de ir pro Brasil explorar a floresta amazônica. Putz, assim ninguém merece. Meus amigos andam fazendo tattoes. Eu não tenho uma tattoo. Seria legal ter tattoes? É pecado ter tattoes?
Alguns amigos tatuam caveiras, guitarras, árvores, moscas invasoras, nome de mulher, caveira de headphone, ratos, capas de discos, nome de banda, nome da própria banda, tudo o que a imaginação deixar. Eu ainda não tatuei. Eu sempre tive vontade de fazer algo no antebraço tipo, rasgar o cpf. Um amigo. O Alexandre Homem Cobra já tinha uma caverona no antebraço em 1994. eu achava transgressor, mas alguns caras estão à
frente da época. O cara rasgou o cpf já no começo dos anos noventa. Com certeza na época era de papel, nos tempos modernos você tem que quebrar o cartão... To loco mamãe?

6.4.09

CEMITÉRIO GRAFITTI




Ninguém deu bola quando o automóvel saiu da garagem de uma das casas da Rua Gralha Azul no parque das indústrias leves em sentido centro leste. A cidade estava parada naquele sábado. Seria uma noite estática e o ar do bairro continuava extravagantemente impregnado pelo cheiro do grande matadouro de frangos da redondeza. Os dois rapazes e a garota estavam munidos com guitarras, alguns amplificadores vagabundos, cervejas, uma bateria sem prato de chimbal e um pequeno tijolo de fumo. Em alguns minutos a banda já estaria no bar chapadão na zona leste da cidade. O velho Passat creme foi estacionado facilmente a cinqüenta metros do bar e a muvuca de tribos urbanas e alguns bêbados locais já haviam tomado conta da calçada e da varanda do bar. Algumas garotas estavam sentadas na mesa de sinuca enquanto alguns rapazes apostavam uma garrafa de pinga na mesa de sinuca ao lado. Já eram umas dez e meia e a primeira banda ainda esperava pelo kit de bateria e alguns aparatos entorpecentes que seriam emprestados pro show que já deveria ter começado.

Os Skull Rockers começam o show por volta da meia noite em uma performance explosiva com seu rockabilly punk eletrificado e garajento. O vocalista/baterista arranca as calças e toca somente de cueca em frente a um publico agressivo e dançante, mas polidamente católico e absurdamente conservador e chapado ao mesmo tempo. A noite termina com uma banda de metal e o bar fecha por volta das três da manha com uma reunião de cúpula do Jardim Interlagos e alguns metaleiros do cincão.

Nesse momento, outro bar no centro da cidade habita uma fração considerável da fauna humana do show do chapadão. Bom movimento ainda na Quintino Bocaiúva. A maioria dos automóveis se deslocando em sentido oeste ou norte. Fim de balada pra maioria das pessoas em suas noites de sorvete, sexo e cerveja pela cidade. Mas não pra moçada que vai ficar no bar até bem mais tarde. Em alguns casos até o amanhecer. No meio da madrugada o cheira da fábrica de frangos avança pra outros bairros e pra algumas partes do centro da cidade também. Quando se desce, por exemplo, tarde da noite no sentido Vila Casoni atravessando a rodoviária e a maternidade, ainda se pode sentir o odor das aves sendo processadas pra largo consumo popular. Pessoas estão acostumadas com a mistura deste cheiro com o cheiro da cidade. Mas a cidade cheira melhor em noites de chuva. Noites em que o céu fica vermelho e o frescor vem à tona em clima de paz e calmaria.

Uma discussão começa no balcão do bar por causa de uma fita cassete, mas é uma discussão entre amigos e a fita mais pesada acaba ganhando. Mais uma hora de barulho ensurdecedor entorpece o ambiente alimentado por um toca fitas corujinha e conversas misturadas com tapas nas mesas de ferro e barulho de copos.

Já é tarde e a minha esperança de escutar um cassete Stooges/Undertones vai pelos ares. Talvez semana que vem. O dono do bar já avisa que ainda existem mais duas na frente da minha e já são quatro horas, portanto não existe a chance de eu escutar o meu som antes de começar a amanhecer. Ele vai enxugando xícaras de café enquanto a moçada enxuga garrafas de Antarctica e Conti. Tudo bem. Isso sempre acontece e essa democracia também deixa as noites legais e geralmente estranhamente divertidas. O bar dá de cara pra rua e na mesma calçada tem um ponto de ônibus e quando não é tão tarde as pessoas passam sempre olhando chocadas ou tirando um sarrinho. Algumas de carro também. Uma vez sentado lá na porta fomos alvejados por pó branco de extintor de incêndio por uns caras que passavam de monza. Foi engraçado, mas eu já tava bem grogue e achei que fosse algo mais sério. Tudo muito rápido e sem noção. Dai ficaram tirando sarro de mim. Estávamos tomando vinho barato sentados no degrau da frente. Não me lembro o que estava tocando no toca fitas. Provavelmente alguma coisa do Extreme Noise Terror.A noite continuou e acabou de manhã com a moçada vazando pro terminal ou pra outros pontos de ônibus. Já eram seis e meia da manhã de domingo e já estava amanhecendo.



****


Foi engraçado e estranho quando estávamos marcados pra fazer um show numa noite de sábado na avenida leste-oeste. Por volta das oito e meia o som já havia sido passado e o palco estava pronto pras duas bandas da noite. Eu resolvi voltar pra casa e não deixar o meu baixo com o equipamento no palco. Eu não tenho esse hábito, a não que eu não tenha escolha. Fui deixado em casa pelo guitarrista da banda e por volta das nove e meia eu já estava novamente tirando um cochilo. Era na época em que eu morava no centro e foi no final de 1996. Eu capotei pesado e não me lembro da minha fita cassete enroscando no cabeçote do velho Toshiba estéreo. Francamente não me lembro se era uma fita dos Dead Boys/ Voidoids ou do The Clash. Acordei assustado e sem rumo. Talvez já fosse mais de meia noite. O telefone não tocou, ninguém tocou a campainha, ninguém gritou da rua, ninguém apareceu pra falar nada. Olhei no relógio e já era quase uma da manhã. Corri, vesti meu jeans e meu all star. Coloquei uma jaqueta jeans e meus óculos. Peguei meu baixo e sai sorumbático pra rua. Eu havia esquecido a porta aberta e a chave na porta. Voltei da esquina e consegui entrar. Subi, peguei a chave e tranquei a porta. Voltei e sai em disparada. Quando cheguei na Avenida Duque de Caxias e virei à esquerda, imediatamente dei de cara com quatro caras que vinham andando lentamente na minha direção. Eles logo fecharam uma parede contra mim e vieram me perguntar se eu tinha um passe e cigarro e um real... Eu virei pra fugir pelo lado errado, o lado da porta de lata de uma loja de ração pra animais... Já levei uma na face direita e meus óculos entortaram. Agarrei meu baixo pela alça da capa e pelo braço. Olhei pra cima e levei outro murro na testa. Esse me deixou zonzo e me fez esquecer o que tava acontecendo. Alguns segundos depois, levei uma solada (provavelmente de M2000) no meio da cara. Meu nariz doía e sangrava. Continuei olhando pra esquerda e vi alguns carros passando em velocidade. Olhei pro lado direito e os vi atravessando a rua. Seguiram andando lentamente. Um deles acendia um cigarro e o outro gesticulava um chute.


Segui andando pela duque no sentido leste-oeste. Meu rosto não sangrava muito, mas eu já estava bem sujo. Resolvi passar na adega pra me limpar no banheiro. O bar estava vazio, mas havia um casal de namorados que discutiam no orelhão e também uma mesa com dois tiozinhos em fim de carreira na varanda. Passei por eles e entrei por dentro do bar. Seu Zé estava atrás do balcão enchendo duas garrafas de vinho e não me deu atenção. Fui direto pro banheiro no fundo do bar. Não havia espelho. Abri a torneira, enchi as mãos de água e lavei meu rosto. Minha testa estava levemente ralada, meu nariz não havia quebrado, mas estava dolorido. Minha cabeça doía e tinha um galo na parte de trás. Tentei desentortar meus óculos como pude.

Andei a Duque até chegar na Leste Oeste. Já havia perdido a noção de tempo e pra mim já havia tudo terminado. Eu realmente estava mais preocupado com o show do que com meus óculos ou meu estado de espírito. Eu só escutava The Clash nesses dias e eu tava loco pra executar Clash City Rockers e Garageland no meio do repertório.

Cheguei no tattoo bar e vi uma muvuca na porta de entrada. O som tava alto lá dentro e deu pra perceber que tocava alguma coisa bem horrível no sistema de som.

---- que horas são por favor?
---- não sei não. Mais de uma e meia!
---- vc sabe se alguém já tocou?
---- não sei não. Eu trabalho no cachorro quente ali em cima. Toca rock aqui né?
---- acho que sim. Respondi.


Na portaria havia um cara mal encarado e um segurança com cara de quem não dormia há anos.

---- eu vou tocar aqui hoje.
---- ah ta. Vai tocar o que?
---- eu toco na segunda banda!
---- de que banda você é?
---- The Cherry Bomb. Posso entrar?
---- nossa cara, o que aconteceu com você? Andou brigando na rua?
---- levei um pau na duque.
---- hahahahahhaha, entra ai.




****


Gosto das demos do Transformer do Lou Reed, são acústicas, simples e muito bonitas. Transformer é um disco incrível. Eu escuto há anos e nunca fico de saco cheio. Ainda prefiro Andy's Chest e Ny Telephone Conversation do que qualquer porcaria radiofônica transmitida pelas nossas generosas e jabaculentas rádios. Esse disco também cai muito bem com uma bela macarronada e um vinho.

Escutei um estalo bem alto numa noite de sábado. Sozinho em casa por volta da meia noite ainda decidindo o que ia fazer. Talvez não fosse sair pra lugar algum. Talvez pro Valentino e de repente uma carona pro Potiguá em algum fusca depenado. A noite foi estranha a partir das duas da manha. O estalo era o portão do estacionamento comercial ao lado. Um inferno de lugar barulhento 24 horas por dia. Estalos, gente falando alto, playboys buzinando bêbados e brigas de namorados entorpecidos de caipirinha e tédio. Alguns pratos voavam do primeiro andar às vezes. Eu adorava o barulho dos cacos estilhaçando no grande telhado de zinco. Tudo parava por cinco segundos. Dava pra escutar as janelas do edifício se abrindo na madrugada. Era delicioso.

Não fazia calor como na maior parte do tempo. As garotas estavam belas no Valentino em clima noir. Algumas gatinhas da UEL ficam bem européias nessa época do ano. O inverno era interessante quando os bons tempos do Valentino ainda estavam em voga. Mas não sei como anda tudo isso ultimamente. Algo me diz que esses tempos não voltam em breve.

O bar tava cheio. Algumas garotas ainda estavam esnobes com seus copinhos de kaiser quente. Elas estavam pescando caras bonitos e ricos na noite londrinense. Mas felizmente nessa época ainda não tocavam Strokes no Valentino. Talvez estivesse tocando Cake ou alguma coisa do Tim Maia. Não me lembro. Mas lembro do comportamento noir das garotas recém chegadas das peças do FILO depois da meia noite. Tudo bem sexy underground.Não escutei os tiros de dentro do bar. Mas vi que a coisa era feia. Algumas pessoas gritavam alto na varanda e na parte da frente. Todo mundo se amontoou e correu pra ver o que tava acontecendo. Não deu pra ver na hora.O assassino correu bem rápido após o segundo disparo. O primeiro pegou de raspão na perna de um cliente que comia algumas torradas e esperava por mais uma Kaiser. O segundo foi na cabeça e à queima roupa. Quando a ambulância chegou quase meia hora depois o assassino já devia estar em casa, assistindo corujão.

Achei que fosse melhor dar um pulo no Potiguá e esperar as notícias sangrentas na segunda feira.
Não teve como. Enquanto eu dava no pé eu escutava as pessoas falando alto que o cara estava gravemente ferido e provavelmente morto.Andei lentamente por uns quarenta minutos me desviando de automóveis abusivos e pessoas permissivas naquela noite de inverno em Londrina.
E fiz o caminho todo pela rua Paranaguá até chegar em algum ponto da Quintino e do nada avisto Robson Leão parado na calçada em frente ao posto de gasolina. Aquele em frente ao gigantesco terreno baldio.


---- que tu ta fazendo aqui cara?
---- to aqui esperando uma gata.
---- que gata?
---- uma que eu conheci no 145.
---- não tá com frio não cara?
---- frio e psicológico.
---- ta a fim de dar um pulo no Potiguá?
---- to nada. Só tem homem lá e eu não gosto de fumaça de cigarro.

---- é por isso que você não vai mais no Valentino? acho que mataram alguém lá uma hora atrás.
---- sério? Caralho, briga?
---- não. Parece que foram duas balas de garrucha ou 32 sei lá. Tiros a queima roupa.
---- vamo pro Potiguá?
---- vou com você até a esquina dai vou pra casa.


Seguimos mais uns duzentos metros e ele virou à esquerda, nos despedimos de longe. Eu sabia que ele iria voltar pro posto de gasolina. Ele esperava por alguém. Ele e sua camiseta manga cavada dos Sex Pistols naquele frio.

Andei mais uns dez minutos e logo que chequei na esquina já dava pra escutar o barulho das pessoas falando alto e bebendo no bar. Entrei e fui direto no creator.

---- fala creator!!!
---- fala o que? to ligado que você me acha um filho da puta.
---- e ai doni beleza? vê uma Antarctica pra mim?
---- você vai me dar um copo da tua breja?
---- mas o teu ta cheio cara.
---- não interessa. Só to perguntando se você vai me dar um copo caralho.
---- vou dar nada. A tua ta na metade.


Fiquei ali conversando com ele e prestando atenção no cheiro do caldo de mocotó e café que impregnava o bar. No toca fitas rolava o velho cassete dos The Ventures ao vivo no japão incansavelmente em alto volume. Ainda existe a esperança de algumas garotas aparecerem pruma cerveja na madruga.




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Gosto quando as noites estão mais frescas e o céu num tom mais avermelhado, me conforta a cabeça. Gosto da noite em época de chuvas de verão. As pancadas vêm pra aliviar o calor e a corrosão cerebral em meio ao sonho da cidade. Eu sonho na cidade. Eu vivo nela e minha cabeça não espera o ritmo dela. Não sou o único cara. Gosto da parte do pontilhão da Celso Garcia que liga o centro ao aeroporto e à zona leste. Gosto do azul cruel dos parapeitos enferrujados, dos grandes barrancos e toda a coisa do movimento da Via Expressa. Longos espaços com grama, mato e lixo.
Sempre me vem à tona todo o barulho dos cachorros nos quintais da Vila Brasil e dos gatos soltos. Ainda se vê mais gatos mortos na sarjeta do que cães. Essa é a sina de muitos deles. Talvez tenha sido assim também com a minha Ninon. Ela desapareceu após 17 anos na ativa. Os automóveis também são uma constante na auto-afirmação de alguns seres humanos. A velocidade que te fascina e me aterroriza. Não consigo esquecer a cidade e algumas de suas lendas urbanas. Criminosos locais e toda a corja de canastrões, políticos profissionais, trogloditas e auto-protecionistas ditando as regras na ex capital mundial do café. Alguém se lembra do golpe do bilhete premiado, jogatina com bolinhas na Praça Rocha Pombo, sobreviventes picaretas no sol da tarde em clima de correria nas proximidades do hotel Berlin? E dos restaurantes chineses que talvez abriguem grandes e violentas apostas em ritmo de artes marciais depois da meia noite? Gosto também do peixe elétrico e das pomadas vendidas no calçadão. Essas pomadas saram tudo e a todos. Daí no final o promotor de vendas salta entre uma redoma de facas e como uma tartaruga ninja ele sai intacto e vitorioso de sua longa conversa performática. Gênio. Daí com certeza após todo o trabalho do dia ele volte satisfeito e enobrecidamente cansado pro seu quarto no fundo do hotel Cravinho.Uvas verdes refrescam mais ainda essa tarde de segunda feira. As uvas do leste da cidade são aparentemente mais caras, mas são mais doces. Eu comprava sempre ao lado da estação de Turnpike Lane. Eram realmente bem baratas, mas azedas e marrentas. Pago o dobro do preço aqui em Hackney, mas são bem melhores. Boas uvas também me fazem lembrar feiras e feiras, me fazem lembrar do grande quadrilátero do cemitério São Pedro. O mesmo cemitério dos velhos túmulos em cores kitsch e das baratas gigantes. Alguns levam uma pequena placa - perpétua, talvez signifique - pra sempre.já dei uma espiada no ossário lá e talvez aqueles ossos não tiveram seus túmulos perpetuados. Mas que diferença isso faz a essa altura do campeonato?A cidade é ainda muito nova e ensolarada pra se ter um cemitério gótico ou algo que o valha. Não sou apaixonado por cemitérios, mas sempre gostei de cruzar o cemitério São Pedro. Às vezes pensava em atravessar na madrugada pra ver se realmente existiam todos aqueles dobermans soltos que o Osmar me falava. Toda vez que eu passava por lá depois da meia noite eu dava uma espiadela sobre o muro e nunca vi nada.
Nunca arrisquei o passeio simplesmente pra não correr o risco de ser comparado a um ladrão de túmulos ou coisa assim.
Gostaria de um dia ser enterrado lá. Bem pertinho da pizzaria. Gosto daquela parte. É meio barulhento, mas não dá nada. Talvez o problema maior sejam mesmo as baratas gigantes. Elas simplesmente dominam o pedaço em clima de gangues. Imagina só. Um cemitério que abriga um espaço de quatro quadras talvez deva ser do tamanho de Nova Iorque pras baratas.